domingo, 18 de maio de 2008

Como Simón Bolívar - que morreu em 1830 - encarava as Desigualdades Sociais

O regime que o General Simón Bolívar impunha aos seus oficiais, tanto na paz como na guerra, não somente era de uma disciplina heróica como de uma lealdade que quase requeria a ajuda da clarividência. Eram homens de guerra, embora não de quartel, pois haviam combatido tanto que mal tinham tido tempo de acampar. Havia de tudo, mas o núcleo dos que fizeram a independência mais próximos do general era a flor da aristocracia nativa, educados nas escolas dos príncipes. Tinham vivido a pelejar de um lado para o outro, longe de suas casas, de suas mulheres, de seus filhos, longe de tudo, e a necessidade os fizera políticos e homens de governo.

Um era diferente: José Laurencio Silva, filho de uma parteira da aldeia de El Tinaco, nos Llanos, e de um pescador do rio. Por parte de pai e de mãe era moreno escuro, pertencia à classe desafavorecida dos pardos, mas Bolívar o casara com Felicia, uma de suas sobrinhas. Fez carreira começando como recruta voluntário do exército libertador aos dezesseis anos de idade, até chegar a general-em-chefe aos cinqüenta e oito; sofreu mais de quinze ferimentos graves e numerosos leves, de diversas armas, em cinqüenta e duas ações de quase todas as campanhas da independência. A única contrariedade que sua condição de pardo lhe trouxe foi ser rejeitado por uma dama da aristocracia local a quem tirara para dançar num baile de gala. Simón Bolívar pediu então que bisassem a valsa, e a dançou com ele.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Conto infantil para que Aprendam o que lhes Espera

Autoria Desconhecida


Um açougueiro estava trabalhando em seu estabelecimento e se surpreendeu ao ver entrar um cão. Espantou-o, mas o cão voltou em seguida. Novamente tentava espantá-lo quando se deu conta de que o cachorro trazia um bilhete na boca. Tomou o bilhete e leu: "Poderia mandar-me 12 salchichas e três costelas de cabrito, por favor?" E o açougueiro viu que o cão também trazia uma nota de 50 reais. Então, pegou o dinheiro e pôs as salchichas e costelas em uma bolsa que, junto com o troco, colocou presa à boca do cachorro.
O açougueiro estava muito impressionado e como já era hora de fechar o açougue, decidiu seguir o cão que começou a descer a rua com a bolsa em sua boca. Quando chegou a um cruzamento, colocou a bolsa na calçada, se ergueu sobre suas patas traseiras, e com uma das patas dianteiras apertou o botão de pedestres para mudar o sinal.

Pegou novamente a bolsa e esperou pacientemente, com ela pendurada no focinho, que o semáforo desse vez aos pedestres. Atravessou então o cruzamento e caminhou até uma parada de ônibus, enquanto o assombrado açougueiro o seguia de perto.
No ponto de ônibus, o cachorro olhou para uma tabela de rotas e horários, e sentou-se na calçada a esperar por seu ônibus. Chegou um que não era o seu e o cachorro continuou esperando pelo correto. Chegou então, outro ônibus. O cão olhou para ele e ao dar-se conta de que era o correto, entrou nele pela porta traseira, para que o motorista não lhe visse.
O açougueiro, boquiabierto, lhe seguiu. De repente o cachorro se ergueu sobre suas patas traseiras, tocou a campainha pedindo parada, e sempre com a bolsa na boca. Quando o ônibus parou, o cão desceu, e também o açougueiro, e ambos se foram caminhando pela rua até que o cão parou em uma casa, pôs a bolsa na calçada, e retirando-se um pouco, correu e se lançou contra a porta. Repitiu a ação várias vezes, mas ninguém abriu a porta.
Então o cachorro deu a volta na casa, saltou uma cerca, foi até uma janela e, com sua cabeça golpeou várias vezes o vidro. Voltou então à porta, que se abriu e apareceu um homem que começou a bater no cachorro.
O açougueiro correu até o homem e lhe gritou: - Por Deus, amigo! O que é que você está fazendo? Seu cão é um gênio!

O homem, irritado, respondeu:

- Um gênio? Esta é a segunda vez nesta mesma semana que este cão estúpido esquece as chaves !

Moral da estória: Você pode continuar excedendo as expectativas, mas ante os olhos do chefe estará sempre abaixo do esperado......

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Questão Cultural

Eduardo Sérgio


Um homem trabalhava na matriz de uma empresa portuguesa. A empresa lhe fez uma proposta de trabalhar na administração da filial no Brasil ganhando mais do que ganhava em Portugal. O homem pediu tempo para pensar e discutir o assunto com sua esposa. Ao chegar em casa sua mulher que estava a tirar a janta, percebeu que alguma coisa estava a martelar a cabeça de seu marido. Perguntou o que tinha ele mas o homem preferiu que conversassem durante o jantar. Assim aceitou a mulher, e quando se sentaram à mesa, ela perguntou o que tanto o afligia. Quando ele falou sobre a proposta, a mulher pôs-se a pensar e por fim disse que não achava uma boa idéia irem para o Brasil, afinal ele havia construído toda uma vida em Portugal, seus amigos lhe prezavam e respeitavam pelo que ele sempre se mostrou ser, qual seja, um homem respeitável. “Mas a mudança para o Brasil não seria permanente”, argumentou o homem. “Além do mais, enquanto estivermos no Brasil, receberei mais do que ganho aqui. É uma forma da empresa me recompensar por trabalhar longe da terrinha”. “Quanto tempo?”, perguntou a mulher. “Dois anos.”, respondeu ele. “Então vais tu, enquanto eu tomo conta da casa e do miúdo. Quando voltares, daqui a dois anos, estaremos um pouco mais ricos e daremos uma melhor educação ao nosso filho”. O homem achou sensato o pensamento de sua esposa. Foi para o Brasil e começou sua empreitada que terminaria dali só a dois anos. Semanalmente recebia carta da esposa as quais respondia com a mesma freqüência. Como era um homem que se relacionava bem com os outros não demorou a fazer amigos. Mas a saudade da terrinha era grande e quando escrevia para sua esposa contando-lhe de sua nostalgia, na resposta ela sempre o lembrava que esse era o ônus a se pagar, porém que se ele agüentasse ficar os dois anos no Brasil, seria melhor quando voltasse a Portugal, pois teriam uma vida melhor. Ele desabafava esse seu sofrimento também com seus amigos brasileiros que lhe passavam mensagens de ânimo. Já havia se passado um ano que ele estava no Brasil, quando certo dia chega no trabalho e diz a um amigo que havia recebido uma carta de sua esposa e que soube através dela que era pai pela segunda vez. Seu colega olhou para ele e perguntou: “Você está aqui há quanto tempo?” perguntou o brasileiro. “Um ano.” respondeu o lusitano. “E sua esposa veio aqui ao Brasil quando?” perguntou novamente o brasileiro. “Minha senhora nunca esteve cá no Brasil.” Respondeu o português. O brasileiro puxou sua cadeira para traz, rodou-a no próprio eixo, e curvou-se para frente, numa atitude de quem quer acudir o amigo. Abaixou a voz e disse: “Olha, você não vê sua esposa há um ano e uma gestação dura nove meses. Como é que você vai acreditar nessa estória de que você é pai pela segunda vez? Você não está vendo que essa criança é filho de outra pessoa?” O português continuou calado. Depois de um grande suspiro disse: “Acho que trata-se de uma questão cultural. Você encara certas situações de uma maneira e eu de outra. Não percebes que, para mim, se é filho de minha esposa é filho meu também?

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Uma Separação

Eduardo Sérgio


Por causa de uma repreensão muito forte e violenta que um homem deu em seu filho, a mulher tomou as dores da criança e o casamento nunca mais foi o mesmo. Por qualquer coisa discutiam. As discussões passaram a ficar cada vez mais acaloradas. Decidiram então se separar. Como não concordavam com todos os pontos da separação, tiveram que constituir advogados e partiram para uma separação litigiosa. No dia da audiência, antes de discutir os méritos ou desméritos, o juiz perguntou-lhes se não havia possibilidade de reconciliação, ao que a mulher se adiantou e disse que não poderia se reconciliar com um homem que em uma discussão, perdeu a cabeça e lhe deu duas marteladas. O homem prontamente contestou: “Isso é mentira! Eu só dei uma!”

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Abandono de Lar

Eduardo Sérgio


Um homem abandonou a mulher e a casa em que viviam. Não tinham muitas posses, e para ele foi, de certa forma, fácil tomar a decisão de se mudar para uma cidade próxima, junto com sua concubina. Da esposa, não podemos dizer a mesma coisa, uma vez que não tinha emprego. Arranjou um que não lhe rendia muito, mas foi o que se pode arranjar. Um ano depois, foi a uma festa e lá avistou seu ex-marido. Ele, quando a viu, foi até ela e a tirou para dançar. A mulher hesitou, mas concordou em dançar com ele. Dançaram e bem apertadinhos. E assim ficaram dançando a noite toda. Quando terminou a festa, os dois foram para a casa da mulher. Lá, eles se beijaram e, como era de se esperar, fizeram sexo. Parecia que todos dois estavam com saudades. Após o sexo, o homem dormiu feito criança. A mulher então levantou-se e foi até a cozinha. De lá voltou com uma chaleira de água fervendo e tranqüilamente derramou no ouvido de seu ex-marido que nunca mais acordou.

domingo, 4 de maio de 2008

A Escolha do Gawain

O jovem Rei Arthur foi surpreendido pelo monarca do reino vizinho enquanto caçava furtivamente em seu bosque. O Rei poderia tê-lo matado no ato, pois tal era o castigo para quem violasse as leis de propriedade, contudo se comoveu ante a juventude e a simpatia de Arthur e lhe ofereceu a liberdade, desde que no prazo de um ano trouxesse a resposta a uma pergunta difícil.

A pergunta era: O que realmente as mulheres querem? Semelhante pergunta deixaria perplexo até ao homem mais sábio, e ao jovem Arthur lhe pareceu impossível de respondê-la. Contudo aquilo era melhor do que a morte, de modo que regressou a seu reino e começou a interrogar as pessoas. A princesa, a rainha, as prostitutas, os monges os sábios, o palhaço da corte, em suma, todos e ninguém soube dar uma resposta convincente. Porém todos o aconselharam a consultar a velha bruxa, porque somente ela saberia a resposta. O preço seria alto, já que a velha bruxa era famosa em todo o reino pelo exorbitante preço cobrado pelos seus serviços.

Chegou o último dia do ano acordado e Arthur não teve mais remédio se não recorrer a feiticeira. Ela aceitou dar-lhe uma resposta satisfatória, com uma condição, primeiro aceitaria o preço. Ela queria casar-se com Gawain, o cavaleiro mais nobre da mesa redonda e o mais intimo amigo do Rei Arthur! O jovem Arthur a olhou horrorizado: era feíssima, tinha um só dente, desprendia um fedor que causava náuseas até a um cachorro, fazia ruídos obscenos... nunca havia topado com uma criatura tão repugnante. Se acovardou diante da perspectiva de pedir a um amigo de toda a sua vida para assumir essa carga terrível.

Não obstante, ao inteirar-se do pacto proposto, Gawain afirmou que não era um sacrifício excessivo em troca da vida de seu melhor amigo e a preservação da Mesa Redonda. Anunciadas as bodas, a velha bruxa, com sua sabedoria infernal, disse: O que realmente as mulheres querem é: Serem soberanas de suas próprias vidas!!! Todos souberam no mesmo instante que a feiticeira havia dito uma grande verdade e que o jovem Rei Arthur estaria salvo. Assim foi a ouvir a resposta, o monarca vizinho lhe devolveu a liberdade.

Porém, que bodas tristes foram aquelas... toda a corte assistiu e ninguém se sentiu mais desgarrado entre o alivio e a angústia, que o próprio Arthur. Gawain, se mostrou cortes, gentil e respeitoso. A velha bruxa usou de seus piores hábitos, comeu sem usar talheres, emitiu ruídos e um mau cheiro espantoso.

Chegou a noite de núpcias. Quando Gawain, já preparado para ir para o leito nupcial aguardava que sua esposa se reunisse com ele... ela apareceu com o aspecto da donzela mais formosa que um homem desejaria ver... Gawain ficou estupefato e lhe perguntou o que havia acontecido. A jovem lhe respondeu com um sorriso doce, que como havia sido cortes com ela, a metade do tempo se apresentaria com aspecto horrível e a outra metade com aspecto de uma linda donzela. Então ela lhe perguntou. Qual ele preferiria para o dia e qual para a noite?

Que pergunta cruel. Gawain se apressou em fazer cálculos... Poderia ter uma jovem adorável durante o dia para exibir a seus amigos e a noite na privacidade de seu quarto uma bruxa espantosa ou quem sabe ter de dia uma bruxa e a uma jovem linda nos momentos íntimos de sua vida conjugal.

O que você teria preferido? O que teria escolhido? A escolha que fez Gawain está mais abaixo, porém, antes tome a sua decisão.



O nobre Gawain respondeu que a deixaria escolher por si mesma. Ao ouvir a resposta, ela anunciou que seria uma linda jovem de dia e de noite, porque ele a havia respeitado e permitido ser soberana de sua própria vida.



Moral da história:

Não importa se a mulher é bonita ou feia, no fundo ela é e sempre será uma bruxa.

Conto Gramatical Conotativo

Desconheço a autoria


Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e para justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta dela inteira.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal.

Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

 
Agradecimento especial a Cris Sincera
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